Fenadoce - Grafos e análise de Tweets


logofenadoce.jpgBrincando de analisar mais algumas conversações, coletei tweets que se referenciavam a um evento que vai acontecer, desta vez a Fenadoce (a Feira Nacional do Doce) que acontece aqui na minha cidade. Como o evento começa na próxima semana, achei que era interessante tentar observar um pouco da expectativa e das percepções em cima dos tweets. Como sempre, usei o NodeXL para coletar e plotar os grafos. 

A primeira imagem é a dos grupos que conversaram nos tweets coletados, a respeito do evento. Estão agrupados por cluster. O cluster azul está principalmente composto pelos veículos "oficiais" de divulgação e imprensa. Os tweets estão mais focados na divulgação do evento e em notícias do mesmo. O cluster vermelho, por outro lado, são pessoas dizendo que querem ir para a feira. O grupo laranja também anuncia que vai, mas está discutindo as atrações. Os grupo rosa e verde também citam atrações, mas combina entre si de ir. Os demais tweets vão citando o evento de alguma forma, mas sem criar/compartilhar conversações. (Clique na imagem para ver maior.)

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A seguir, o grafo só com as conversações (RTs e menções). Novamente, com os mesmos grupos aparecendo. Curiosamente, há uma imensa quantidade de usuários muito jovens falando da feira, conjuntamente com veículos e canais oficiais. (Clique na imagem para ver maior.)

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Quem são os usuários mais mencionados no grafo? Primeiro, é claro, @fenadoce. Depois @pelotas_rs_. Depois, com um número menor de menções, @giovananolasco, @vivih_oliveira_, @hellenavila, @laurarecart. 

E quais são aqueles que mais influenciaram suas redes a conversar/repassar informações sobre a Fenadoce? @DiarioPopularRS (37) e @fenadoce (25).  

E sobre o que as pessoas estão falando quando citam a Fenadoce? A tag cloud a seguir mostra as 100 palavras que mais apareceram nos tweets. (Clique para ver maior.)
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Big Data: Apontamentos e Limitações


big-data.jpgA última palavra da moda em pesquisa é um termo que você talvez já tenha ouvido: "Big Data". Há toda uma gama de pesquisadores de todo o mundo interessadíssimos no que parece ser a grande novidade em termos de dados, proporcionada principalmente pelo advento das ferramentas de Comunicação Mediada por Computador. Mas o que é isso? 

"Big Data" se refere à imensidão de dados sobre indivíduos e grupos que hoje são gerados na Internet por esses atores. Imaginem que, durante anos e anos, as chamadas ciências sociais e humanas que se preocupavam com o comportamento/ações humanas tinham um grande problema: a subjetividade da coleta de dados. Ou seja, coletar dados de pessoas sempre foi um problema para a pesquisa. Pessoas mentem, inventam, são subjetivas e, o "pior", esses dados ainda eram "traduzidos" pelo pesquisador. Análise de redes sociais, por exemplo, era feita como no tempo do Moreno: perguntando às pessoas. Eis que com a Internet, centenas de milhares de pessoas passaram a criar e e espalhar "rastros digitais". Passaram a deixar por aí registros de suas falas, seus gostos, seus pensamentos, seus amigos e etc. Centenas de milhares de dados passaram a ser gerados e publicados por todos nós. E o uso desses dados é o que "Big Data" se refere. É a primeira vez na História que cientistas têm acesso a dados brutos humanos "não subjetivos" e que essas análises podem ser feitas de forma quantitativa e em grande escala. E mais do que isso, de dados que são gerados em outras plataformas especialmente para isso (como dados de consumo, dados de comportamento e etc.) Basicamente, Big Data é sobre todos nós e as informações que publicamos/concedemos a outros. Big Data é sobre análise dos dados de milhares de consumidores. É sobre padrões. 

E como as pesquisas focam esse tipo de "Big Data"?

O pessoal das ciências exatas, principalmente da computação, caiu de cara em cima do Big Data. Mas é na área das ciências humanas e sociais que eu tenho focado mais. E tem bastante gente olhando para esses dados. O Axel Bruns, na Austrália, por exemplo, tem usado "Big Data" pra entender o comportamento das pessoas na mídia social em momentos de crise (por exemplo, durante um desastre) e tentando aprender com isso como criar estratégias para lidar com essas crises. E também tem estudado como a mídia social (o que as pessoas falam na Internet, basicamente) tem a ver com as audiências, tentando entender um pouco melhor o comportamento desses públicos. Aqui no Brasil, o Fábio Malini (UFES) tem trabalhado as organizações e manifestações políticas e de ativismo nesses espaços de fluxos comunicativos. Mas há muito mais gente, que não vou citar aqui porque senão escreveria até amanhã.  

Como pesquisar Big Data?

Aí que está. Embora seja super sedutor ter acesso a esse tipo de dado, é uma coisa cara. Minerar dados na casa dos milhares,  guardar a analisar esses dados demandam recursos que nós - povo das humanas e sociais - nunca tivemos dentro das agências de fomento. Estamos falando de áreas onde os pesquisadores recebem 2 ou 3 mil reais para equipamentos por projeto (dois computadores simples). Enquanto nas Exatas, por exemplo, as cifras giram em torno de 10 -100 vezes esse valor. Por isso, a área tem se desenvolvido principalmente com quem já tem esses recursos - o pessoal das Exatas. Entretanto, é uma área em si interdisciplinar. Dados de pessoas podem estar agora mais facilmente mineráveis, o que não significa que estejam mais facilmente compreensíveis sem elementos qualitativos. E isso, no Brasil, é um desafio muito maior do que parece. As ciências poderiam oferecer mais em conjunto do que separadas.

Big Data vai resolver os problemas do mundo?

Big Data é extremamente limitado justamente por conta de sua abrangência. Como eu disse, é complicadíssimo fazer sentido desses dados. Pensemos, por exemplo, em análise de sentimento: se focarmos a coisa mais simples da Internet, o emoticon para analisar o que as pessoas sentem: Como escalar isso? Uma coisa tão óbvia quanto ":-P", por exemplo, tem zilhares de sentidos conversacionais e esses sentidos ainda podem variar também dentro de grupos sociais diferentes. Pode marcar ironia ou sarcasmo, pode marcar uma piada, pode marcar uma implicância, uma insegurança, etc. Como determinar, a priori, o que ele significa? É complexo. Do mesmo modo, onomatopéias. Como medir "riso"? É o "hahahahaha"? É o "kkkkk"? É o :-D? É o hiahiuhaiu? Ou é o "rs, rs"? É como tentar fazer sentido de uma conversa que não foi presenciada: complicado, porque muito do contexto se perdeu.  E na correria, análises quantitativas de zilhares de dados podem gerar preceitos simplistas e generalistas que não têm nada a ver com a realidade. É aí que mora o cuidado e a interdisciplinariedade da questão. É preciso buscar, em outras áreas, as contribuições para compreender esses fenômenos.

Além disso, Big Data tem também problemas éticos e de responsabilidade. Como trabalhar com dados que são disponibilizados (mas não voluntariados) para pesquisa pelas pessoas? Como lidar com questões éticas profundas, como dados de menores que não necessariamente estão cientes de sua publicação? É também um gigantesco desafio para os Comitês de Ética das universidades e centros de pesquisa e mesmo para todos nós que não sabemos exatamente o que pode ou não ser feito.






Formato das Conversações em Rede


Uma das coisas que tem me intrigado, ainda no tema do meu último livro, são as formas das conversações. O que eu quero dizer com formas? São as representações (grafos) das conversações que acontecem no Twitter e em outras ferramentas e sua análise. Vejamos alguns exemplos:

O grafo a seguir mostra as conversações em torno de um tópico que bombou ontem a noite no Twitter, "Morena", referente à novela da Globo (vejam que estou falando de TTs, não de hashtags). Os grupos que participaram da conversa estão separados em cada "quadrado" no mapa abaixo. Vejam como há uma imensa pluralidade de contas participando da conversação, com vários grupos conversando entre si mais do que com todos os demais. Cada grupo referencia um contexto específico, com muito poucas conexões entre os grupos. Há um grande assunto que permeia todas as conversações, mas cujo microcontexto é definido por cada grupo, na participação dos atores na conversa.

morena.png(Clique na imagem para ver maior.)


Nesse segundo exemplo, outro tópico que bombou ontem. A referência é uma hashtag que pedia a vinda do Justin Bierber a Porto Alegre, referenciada pelo anúncio de que as datas da próxima tour do cantor pela América do Sul serão divulgadas em breve. Reparem que, diferentemente do exemplo anterior, essa é uma conversação muito mais fechada e muito mais auto-referenciada. Há muito menos participantes e muito mais conexões entre eles. Não há conversações paralelas como no exemplo anterior, mas uma única rede, com muito mais participação. Há um único contexto da conversação, que é dividido por todos os participantes.

justinpoa.png(Clique na imagem para ver maior.)


O terceiro exemplo, a seguir, reflete as conversações em torno do tópico "Matemático", referente a uma matéria do Bom Dia Brasil que trazia a morte do traficante Matemático. Essa conversação tem também grupos separados (nota-se na análise dos tweets, mais claramente, um contexto predominante  diferente da conversação para cada grupo. Por exemplo, alguns faziam piada - azul claro e verdes. Outros comentavam que era menos um ou comentavam que não era para "ter pena" e etc. - azul escuro e vermelho.). Observa-se que existem grupos participantes da conversa que seguem falando em paralelo, mas que se referenciam (conexões entre eles) muito mais do que no primeiro caso, quando praticamente nao há conexões entre os grupos, mas muito menos do que no segundo caso. 

matematicotwitter.png(Clique na imagem para ver maior.)


Essas "formas" indicam um pouco a pluralidade de contextos que temos para cada conversação. Quanto mais contextos em torno do assunto, parece que temos menos conexões entre os grupos. Quanto menos contextos, ou seja, mais participantes da "mesma" conversação, mais fechada é a rede e mais interconectados os grupos. Quanto mais contextos, também, parece que há mais "organicidade" no tópico, no sentido de representar algo  do que muitas pessoas estão realmente falando. Quanto menos contextos, menos relevante para uma maioria é o tópico.

Enfim, apenas algumas idéias alinhadas para discussão. :)

#TrendingTopics: Second Screen e Outras Coisas Mais


Durante todo o ano passado e este ano, eu e o Ricardo Araújo (UFPel) estivemos envolvidos em uma pesquisa sobre os mecanismos de capital social que geram as ações no Twitter e culminam na criação de trending topics. Já escrevi um pouco sobre isso neste outro post. Alguns dos resultados deste trabalho também já foram publicados em pesquisas que estão na parte de artigos aqui do blog.Pois bem, com essa onde de mídia sobre o fenômeno do second screen, os papos sobre convergência e transmídia, revisitei alguns desses dados e começamos a coletar outros pensando no que vira, realmente, TT no Brasil. Durante o segundo semestre de 2012, coletamos uma amostra na casa dos 10 mil tópicos brasileiros, de forma aleatória, em todos os momentos do dia, usando crawlers, durante os meses de setembro-dezembro. Desses, selecionei uma pequena amostra de cerca de 700 topicos que foram classificados manualmente quanto ao seu conteúdo e sua função. O resultado é a tabela abaixo:

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 (Clique no gráfico para ver maior)


O gráfico mostra quais foram os principais temas dos tópicos da amostra do 2o semestre de 2012. Alguns detalhes: A categoria "televisão" abarcou apenas os tópicos que se referiam diretamente a um programa de TV (por exemplo, "A Grande Família" ou "Modern Family"). Essa categoria refere-se diretamente ao que os usuários estão discutindo sobre um determinado programa de televisão ou filme.

A categria "celebridade" está inflacionada por conta das ações dos fandoms (cuja ação nos TTs brasileiros já discuti com a Adriana Amaral e a Camila Monteiro neste artigo), mas abrange todos os tópicos que se referiam a alguma celebridade. Entretanto, muitos destes tópicos são sobre celebridades que estão dando uma entrevista ou aparecendo na televisão naquele momento (por exemplo "Restart na Ana Maria Braga" ou sobre personagens e atores do Rebelde). Há, assim, uma fortíssima intersecção entre a categoria e os programas de televisão. Além disso, essa categoria também compreende ações entre fãs e antifãs (guerra por tópicos, pedidos para a celebridade, mensagens e etc.). Finalmente, essa categoria também se refere a celebridades que não estão apenas aparecendo na televisão, mas também, surpresa, surpresa... no rádio! Sim, encontramos MUITAS referências a programas de rádio transmitidos via Internet e mesmo a programas que imaginamos que são locais. Muitos dos tópicos que dizem respeito a músicas, por exemplo, também referenciavam algo que as pessoas estavam escutando (especialmente tópicos da madrugada). Mesmo na categoria celebridades, muitos músicos e bandas também eram citados nessa base.

Finalmente, a categoria "meme" também apareceu forte. Classificamos como meme (há uma imprecisão conceitual aqui, cuidado, pois todo o TT poderia ser - discutivelmente - um meme, mas optamos por essa classificação porque se refere a um tipo mais popular/conhecido de meme) todo o tópico cuja finalidade não era o tópico em si, mas o jogo, a brincadeira que se gerava ao redor dele. Assim, tópicos como #Tuite2mentiras ou #5pessoaslindas entram nessa categoria. A popularidade desse tipo de tópico atesta, como já tenho argumentado há algum tempo, a crescente popularidade do Twitter entre os adolescentes brasileiros.

A categoria "news", por sua vez, reuniu apenas os tópicos que se referiam a elementos factuais (por exemplo, citando notícias ou fatos que corriam na mídia, tais como "STF",  "Joaquim Barbosa" e etc.).

tts3004.jpgA categoria "esportes" também tem uma relação forte com a TV e o Rádio. A maior parte dos tópicos nessa categoria se referia a jogos de futebol ou lutas que estavam acontecendo e sendo transmitidas pela televisão ou mesmo pelo rádio. Inclusive, há tópicos narrando os jogos de futebol, como São Paulo 0 x 0 Cruzeiro, que logo a seguir passa a ser São Paulo 1 x 0 Cruzeiro, de acordo com o andamento do jogo.

A categoria "outros" foram os tópicos que não conseguimos classificar ou que tinham categorias muito particulares e de pouca presença.

O que esses dados parecem insinuar?

  • Há uma relação de convergência entre o Twitter e a televisão no sentido de que as pessoas estão usando a ferramenta para comentar a respeito dos programas de televisão. Entretanto, é importante ressaltar que devido à natureza e ao conteúdo dos tweets, há uma forte desconfiança de que muito deste conteúdo (embora, obviamente, não todo) refere-se a uma participação particular de fandoms e adolescentes, mais do que a um fenômeno cultural nacional.
  • A mesma relação é observada entre o Twitter e algumas rádios online que são bastante populares. Novamente, a participação parece ser forte especialmente dos adolescentes.
  • É na área do esporte que a convergência parece aparecer de forma mais uniforme entre os vários grupos diferentes presentes no Twitter. Esses tópicos parecem atravessar um grupo maior de usuários.
  • É, entretanto, na categoria "celebridade" que todo o fenômeno tem suas origens. Ao que parece, a ida das celebridades ao Twitter e seu uso para manter uma relação próxima com os fãs gerou toda uma movimentação e articulação para criar e popularizar tópicos que atendem aos pedidos dos artistas. Há artigos que mencionam esse fato como esse aqui da Alice Marwick e da danah boyd. Esse fato também parece ter criado uma avalanche de tópicos que diz respeito, unica e exclusivamente, às celebridades, em detrimento das outras categorias de tópicos (como notícias).

Embora o fenômeno do second screen não seja novo (todas as tecnologias de comunicação mediada pelo computador aqui no Brasil têm aspectos de discussão de outros meios, especialmente a TV, desde seu início. Só para citar exemplos, refiro os canais do IRC utilizados lá no meio da década de 90 para discutir exclusivamente séries televisivas), esses dados reforçam a sua popularização e presença, especialmente quanto a camadas mais jovens da população. Entretanto, é importante que se observe com reservas sua abrangência, pois o Twitter está longe de ser um micro-universo representativo de todas as classes e idades da população brasileira.

Em breve posto a atualização dos dados para o primeiro semestre de 2013 aqui e daí podemos comparar o que mudou nesses meses. :))

Drops de Abril


Muito, muito trabalho nesse início de 2013 e por isso a ausência prolongada do blog. Alguns excelentes artigos que andei lendo e que merecem ser lidos:

  • The Harlem Shake: Anatomy of a Viral Meme - Artigo do Gilad Lotan fazendo uma breve e instigante análise do meme Harlem Shake e seu espalhamento pela Internet. Parte dele tem umas visualizações lindas de redes sociais. É um bom artigo para a mais que necessária reflexão a respeito do que é um meme e o que significa dizer que um meme "viralizou". Também acho que o meme do Harlem Shake reflete muito bem várias das características dos memes que acabam sendo bem sucedidos no "caldo cultural". Vale dar uma lida.
  • Outro artigo do mesmo Lotan, desta vez sobre as redes que se desenham em torno de um dos suspeitos dos atentados em Boston: When your Twitter friend turns out to be the Boston Bomber. Apesar do artigo não citar as diferenças entre as redes de seguidos e seguidores, penso que seria interessante para uma análise mais aprofundada. Mas o que achei mesmo interessante é o quanto se pode aprender sobre alguém em cima das redes sociais públicas do ator.
  • A ACM criou uma nova conferência focada especificamente em redes sociais na Internet. É a COSN'13. Deadline no dia 21/06.
Em uma nota menor, atualizei a parte de artigos publicados aqui no site com algumas novidades que ainda não tinha tido tempo de publicar. :D

Engajamento - Observando fanpages com ARS


No outro post eu falei um pouco sobre as diferenças de algumas métricas. Hoje vou falar rapidamente sobre engajamento e análise de redes sociais. Fiz alguns mapas de uma fanpage de uma marca no Facebook ano passado. Ele tinha uma fanpage e passou a investir em mídia, tentando ganhar mais engajamento. O mapa abaixo é um recorte de postagens e os comentaristas/curtidores delas. Foram coletados os posts+ comentários e curtidas realizados num determinado período do mês (nos dados abaixo vou mostrar um recorte de mais ou menos 5 posts), usando um crawler e mapeando via NodeXL. Vou comentar aqui de uma forma simplificada o que podemos entender desses mapas. (Clique nos mapas para ver maior.)

clientegrupossemmidia1.pngNa primeira imagem (acima), temos o primeiro momento: interações orgânicas, sem mídia. Foram mapeados os posts de dias específicos e os fãs que comentaram/curtiram. Cada cor representa os usuários que comentaram/curtiram um determinado post. No mapa, as intersecções entre os grupos coloridos (as conexões que vão de uma cor a outra) representam aqueles usuários que comentaram em mais de um post. Há um grupo bem menos de usuários interagindo (cerca de 2000 atores - perfis- únicos) e a  média de interações dos mesmos usuários em vários posts é de 1.2. Entre os principais interagentes, há pelo menos 9 atores (entre os 10) com mais de 4 interações. Esses são usuários que retornam, ou seja, que estão voltando a página para curtir, comentar ou opinar sobre alguma coisa que foi publicada. A conta da marca interagiu 20 vezes nos posts com os usuarios.

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Nesse segundo momento, já com mídia, vemos um aumento no número de nós (perfis únicos, chegam a quase 9 mil na rede). Entretanto a média do número de interações dos usuários não aumenta, ao contrário, diminui (1.02). Ao mesmo tempo, os usuários com mais interações no período reduz para 3 e 4. Da mesma forma a marca quase não interagiu com os usuários (menos de 3 interações da marca), possivelmente devido ao aumento significativo no volume de interações. Há mais gente comentando/curtindo, mas não há mais gente retornando para a conversa. Isso indicaria que não houve um aumento no engajamento, um aumento nas conversações e na presença dos usuários na página, mas apenas um aumento de visibilidade, propiciado pelo aumento do número de fãs.  Vejam no grafo que não há um maior número visível de conexões entre os grupos coloridos.

Há outras métricas para discutir este engajamento, mas aqui podemos ver um pouquinho do que o uso de ARS pode ajudar a compreender sobre uma fanpage e sobre o engajamento dos usuários nela. (Todos os mapas aqui foram construídos utilizando o NodeXL.)

Engajamento x Audiência no Facebook: Uma breve discussão


Esses tempos, trabalhando com um cliente, iniciei uma discussão sobre como perceber ROI/métricas no Facebook. De um lado, o argumento de que pagando mídia, aumentava muito o número de fas na fanpage da marca. Do outro, o fato de que o aumento do número de fãs não necessariamente conduzia a um aumento do engajamento desses fãs. Ou seja, pagando mídia recebiamos um número X de novos fãs. O número de interações aumentava, mas obviamente não na mesma proporção. Além disso, os problemas (spam, discussões, reclamações, hoaxes e etc.) aumentavam na fanpage na mesma proporção. E daí começamos o debate a respeito do quão significativo é ter aumentar a sua rede no Facebook. Vou resumir um pouco da discussão que está gerando uma série de experimentos em métricas e discussões. :)

Audiência x Engajamento

A idéia de aumentar a rede que está conectada a você nos sites de rede social é praticamente a mesma idéia básica de fazer um anúncio em mídia de massa. O que se busca é audiência. Entretanto, por conta das características próprias dos meios digitais, ter mais gente conectada em uma rede não significa que há mais audiência real e sim potencial. Isso porque há o problema da atenção (quantos são usuários ativos, quantos realmente estão conectados no momento que você publica a informação, e quantos olham efetivamente o que foi publicado - no caso do Twitter, por exemplo, se seus seguidores seguem milhares de pessoas é bastante provável que suas mensagens recebam pouca ou nenhuma atenção por conta da concorrência, por exemplo) e em ferramentas como o Facebook, ainda o problema do algoritmo de visualização (o algoritmo que determina quantose quais  entre os seus fãs realmente recebem suas mensagens na timeline).

Por outro lado, há outro elemento que é relevante: o engajamento, ou seja, quantos dos usuários que sua página ganha realmente estão engajados com sua marca e com sua mensagem. O engajamento não é simplesmente audiência, mas participação, conversação. Ter mais fãs não significa ter mais fãs engajados, e isso me parece ser um ponto importantíssimo. O engajamento, pra mim, é uma decorrência do envolvimento das pessoas entre si e com a marca como persona. É a construção de laços mais fortes, de capital social naquele espaço e naquela rede. Com isso, a rede deixa de ser só uma rede social e passa a ser um espaço de comunidade, com cooperação entre os atores. Esses usuários deixam de ser mera audiência e passam a ser construtores do discurso da marca também, porque replicam, comentam, discutem com os amigos e recomendam a marca ou o serviço.

Enquanto o primeiro tipo de métrica (audiência) é mais comum para grandes marcas que investem pesadamente em mídia, o crescimento orgânico que origina o comprometimento dos usuários é mais comum com as pequenas. E é interessante que ambos produzem efeitos diferentes na percepção da marca. Enquanto o orgânico permite que os consumidores construam coletivamente a percepção da marca (que pode ser boa ou ruim) no crescimento mais, digamos, "artificial" do primeiro caso, a marca tem um pouco mais de controle (pouco, não muito) no sentido de ativamente tentar criar insumos para a percepção dos consumidores.

O que é melhor?

Depende da estratégia e do uso que a marca pretende fazer no Facebook. Mas eu sempre defendo que ter apenas audiência como métrica diz muito pouco a respeito do que realmente está acontecendo com uma marca em redes sociais online. É preciso ir mais a fundo, conversar com os usuários, estudar o engajamento e a percepção. Ou seja, mesmo que não se possa ter uma página com muito engajamento, acho que é fundamental construir algum e isso só acontece quando a marca está disposta a falar também, a criar uma persona, a tornar-se um ator participante na conversação. Muita gente reclama que isso faz da fanpage um SAC.  O SAC é o primeiro passo. O que acontece com muitas marcas é que elas JAMAIS conversaram com seus consumidores. Com isso, não há relacionamento, há apenas crítica e reclamações e obviamente quando os consumidores receberem atenção, vão usar como SAC. As pessoas querem ser ouvidas, querem conversar, querem solucionar seus problemas e dúvidas. Muitas vezes um pouquinho de atenção já descomplicaria uma série de crises. E já constroi um pouquinho mais de capital social e relacionamento entre consumidor e marca.  Como medir essas coisas outra questão que pretendo abordar em um post futuro (além de outras métricas para audiência e para compreender o que acontece na fanpage que estamos testando). Assim que eu tiver um pouco mais de tempo, retorno para o debate. :)

Mídia Social e Ódio


Dislike-Social-Media3.jpgCom as recentes tragédias, mais uma vez, os sites de rede social revelaram um pouco do melhor e do pior das pessoas. E muita gente ficou chocada com a falta de sentimento e a trollagem de muita gente sobre o ocorrido: Piadinhas de todos os tipos, comentários maldosos, humor negro e por aí vai.  Já me questionaram isso várias vezes. Por que as pessoas são tão agressivas e "sem noção" na mídia social?

A gente tem uma pesquisa que é desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Letras com o meu grupo e um grupo de Análise do Discurso da profa. Aracy Ernst.  O time tem ainda a participação de vários alunos da graduação, além de mestrandos e doutorandos. O título é justamente este "Violência em Sites de Redes Sociais" e o nosso objetivo é estudar a violência discursiva (tanto objetiva quanto subjetiva para usar os termos do Zizek), mas especificamente a violência simbólica (Bourdieu tb entra na história). O foco, entretanto, não é apenas qualitativo. É inicialmente qualitativo, mas queremos ir mais adiante e estudar também a difusão da violência, ou seja, como essa violência se propaga nas redes sociais. Basicamente, queremos identificar as razões pelas quais a violência emerge com tanta, digamos, acidez nessas ferramentas, se elas amplificam ou não esses discursos e quais os efeitos disso.  A pesquisa tem o apoio da FAPERGS (Valeu PqG!).

O ponto fundamental do trabalho, entretanto, não é só entender somente a violência mais agressiva, as explosões de ódio que rolam em eventos mais fortes, como o episódio de ontem em Santa Maria, quando piadinhas de gosto duvidoso e agressões por todos os lados imediatamente apareceram. Mas é entender também o papel que a violência subjetiva, ou seja, aquela que é sistemica, que está imbuída nas pequenas agressões que a gente faz todo o dia, uns aos outros em sites de rede social como o Facebook e o Twitter. Essas, digamos, "pequenas agressões" se fazem, principalmente, através de memes e informações publicadas que são, por vezes, humoríticos mas, que, de alguma forma, ferem alguém ou algum grupo. É essa violência sistêmica, que é meio despercebida, que vai também construir o substrato para as explosões agressivas que notamos mais. Para entender assim o evidente, a gente precisa entender também o não tão evidente.

As frentes
O trabalho está sendo desenvolvido em três frentes, que já têm abaixo, alguns resultados e considerações.

  • A primeira delas é que a hiperconexão das redes, gerada pelos sites de rede social (você se conecta com mais gente que se conecta, também, com mais gente) e isso faz com que grupos mais heterogêneos, ou seja, que não dividem os mesmos valores/hábitos tenham um contato mais próximo. Naturalmente, nos grupos nossos grupos sociais, tendemos a nos conectar com pessoas que pensam/agem como nós, pessoas que têm semelhanças educacionais, filosóficas e econômicas. Quando somos obrigados a conviver diretamente com o diferente, surge o conflito.

  • Outra questão é a face e o possível anonimato. Quando agimos de forma mais grosseira com alguém, observamos imediatamente as conseqüências deste ano no Outro, seja na expressão facial, nos gestos e mesmo, na fala. Assim como também nos expomos aos demais. Essa exposição gera uma censura, uma sanção à ofensa. Há ruptura de laços sociais. A parte ofendida tende a buscar apoio no seu grupo e o ofensor, no seu respectivo e acontece um distanciamento social. Nos sites de rede social, entretanto, não se vê a face do outro, ou o grupo que observa uma ofensa. As reações da audiência não são imediatamente discerníveis. Com isso, a correção (p/ usar Goffman) é falha e demorada, o que frequentemente faz com que ocorra tarde demais. Muitas vezes a intenção não é ofender, mas uma flame (discussão inflamada) pode surgir simplesmente por conta de um mal entendido que demorou a ser corrigido. Além disso, o possível anonimato muitas vezes oferecido por essas ferramentas atua como válvula de escape para algumas agressões mais inflamadas, justamente porque o sujeito sabe que não vai sofrer sanção social se não souberem quem é ele.

  • Um terceiro elemento complicador é o humor. O humor é valorizadíssimo como mercadoria de capital social nesses sites. É "legal" ser engraçado. Entretanto, na busca desesperada por fazer humor e acumular reputação com os amigos, as pessoas esquecem dos grupos que não são tão próximos (as chamadas audiências invisíveis nos termos da danah boyd) que acabam também recebendo aquela mensagem e que podem interpretá-la em um contexto diferente e se ofender. Além disso, frequentemente o humor é ofensivo e ofensivo com relação a outros grupos. Assim, ao fazer piadinha com o rival do meu time de futebol para os meus amigos, diretamente posso ofender pessoas que nao sao tao proximas, mas que estao na minha rede (e que diretamente vão considerar a piada uma ofensa pela falta de proximidade). A frequente ofensa pelo humor, mesmo que não seja conflituosa, vai criando uma mágoa capaz de dar origem a manifestações mais agressivas.  

Todas as questões acima são perpassadas pelo contexto. A determinação do contexto da interação é cada vez mais difícil online, justamente porque as redes hiperconectadas reduzem a possibilidade dessa determinação e a mediação complica ainda mais por retirar da interação "pistas" essenciais pra conversação.

Ainda há outras questões que estamos trabalhando, como a questão da difusão dessa violência e das representações do ódio. Partes desse trabalho estão sendo avaliadas para publicação. Assim que forem, coloco os links aqui. E em breve, divulgo também alguns dados. :)