Surtos de Dengue e Zika: Comparativos de Discursos em Português, Inglês e Espanhol


Estamos monitorando um pouco do que tem sido publicado na midia social sobre as epidemias de dengue e zika no Brasil. Retirei dados do Twitter no período do dia 20/01 a 29/01 (dez dias) para testar algumas hipóteses, como a questão dos discursos em torno de cada uma das doenças. Ambas são transmitidas pelo mosquito aedes aegypt, que infesta todos os estados da federação. Utilizamos para esta análise a coleta automática de tweets, limpeza de dados e análises utilizando princípios de análise de conteúdo (contingência)  e algumas métricas de análise de redes. 

Resumo:
Rapidamente, para quem não vai ler textão:
  • mais tweets em Inglês e Espanhol sobre o zika virus do que em Português. Proporcionalmente, há mais tweets sobre a dengue em Português e Espanhol. Em inglês a doença quase não é citada.Mesmo com os efeitos da dengue mais abrangentes com relação à população em geral, a zika aparece mais associada a síndromes e ao pânico.
  • Parte dos tweets sobre a dengue "pega carona" no pânico da zika, como mais uma consequencia da doença.
  • A doença é associada ao mosquito e à transmissão pelo mosquito em todas as linguas. 
  • Há uma tendência de aumento no número de tweets sobre zika e dengue, associados ao pânico pelos efeitos. 
  • O foco dos tweets em Português é o Brasil, Dentre os conceitos mais associados está o governo, a presidenta Dilma, o medo e a transmissão.
  • Os tweets em Inglês e Espanhol são bem mais alarmistas com relação ao que está acontecendo. 
  • A discussão sobre o aborto aparece associada à doença em todos os datasets. 
  • Tweets em Espanhol focam a América Latina, a questão da gravidez e aborto, os problemas para o feto e os bebês, além de alertas de viagem para os países atingidos. Os tweets em inglês focam os problemas da doença e seus efeitos (principalmente nos bebês) e são mais focados na Europa e EUA. 
  • Jogos Olímpicos aparecem fortemente associados ao Rio e às doenças, dentro do clima de alerta geral, de modo mais forte em Inglês, mas também em Espanhol e Português, mostrando que pode haver algum tipo de prejuízo ao evento devido ao pânico. 

Contexto
Para algum contexto, os últimos dados do ministério da saúde (semana epidemiologica 52-2015), foram registrados mais de 1,6 milhões de casos prováveis de dengue no País, principalmente na região sudeste e com pouco mais de 21 mil casos graves e pouco mais de 800 óbitos. O aumento em relação a 2014 é considerável, muitas vezes dobrado. Já a zika é uma doença nova no País, cuja maioria dos casos não se consegue registrar pela falta de sintomas e que se espalhou principalmente pela regiao nordeste. Embora seja aparentemente uma doença de menor gravidade em relação a dengue, seu alarde deu-se principalmente com a confirmação de relação entre danos neurológicos em fetos (casos de microcefalia) e seu aumento no País. Há confusão nos números dos casos de zika, falando-se entre 500 mil e 1,5 mi em 2015. Desde o meio de 2015, o Brasil registrou mais de 4 mil casos de microcefalia, nem todos associados a zika, mas com um aumento alarmante em relação à média geral.

Dados
Em primeiro lugar, o número total de tweets sobre a zika é muito maior do que os tweets sobre a dengue no mesmo período. Embora a dengue seja uma doença mais abrangente em termos populacionais, e aparentemente mais perigosa, é a zika que domina as conversas, com a maioria expressiva de tweets (621.670), contra da 317.430 da dengue no mesmo período. É evidente que as duas doenças estão associadas em vários tweets. Diividimos esses tweets por linguagem identificada entre Português, Espanhol e Inlgês (apenas 432.473 sobre a zika e 183.951 sobre a dengue). Na imagem a seguir, vemos a divisão por lingua entre os tweets sobre cada uma das doenças.

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É interessante observar que o número de tweets é muito maior em espanhol e inglês (o que poderia implicar em um interesse externo muito maior nas notícias sobre as doenças fora do Brasil do que dentro do Brasil). Também vemos que o número de tweets em Português sobre as duas doenças é mais próximo proporcionalmente, enquanto em Espanhol e Inlgês o destaque é principalmente para a zika. Observamos também que as menções à dengue, em inglês, são muito baixas em relação aos dados das outras linguas. O volume de tweets em espanhol é o mais expressivo.


Mas o que tem sido dito sobre a zika?

Não vou colocar todos os dados aqui, mas alguns elementos relevantes podem ser observados em cada um dos grafos. Vou focar principalmente nos dados sobre a Zika. A principal diferença entre os discursos das doenças é que o da dengue é bem mais ameno, mais "burocrático", enquanto nos tweets que falam sobre a zika apenas há um tom bastante alarmista e de pânico em muitos casos.

Nos grafos, as co-ocorrências mostram conceitos que tendem a aparecer juntos (conexões) e o tamanho das palavras indica sua frequencia naquele conjunto. Os dados a seguir focam principalmente as temáticas mais frequentes, dadas pelas associações normalizadas entre os conceitos. Para ver as imagens em tamanho maior, basta clicar nelas. 

Com relação aos tweets em Português, grande destaque é dado ao espalhamento do virus, sua associação com o País, com o mosquito, com a epidemia e com a microcefalia. É importante ressaltar também duas associações fortes, entre as Olimpíadas, o Carnaval, o Brasil e o vírus, e entre o governo (principalmente a presidenta Dilma), o ministério (da saúde) e o combate ao vírus e entre a gravidez, a microcefalia e o vírus. A questão da transmissão sexual também é abordada.  Apesar dessas associações, a maior parte do que é dito circula em torno de adjetivos relacionados ao medo, ao alerta e à esperança por uma vacina. Também nota-se forte associação entre a zika, a dengue e a chikunguya, outra doença causada pelo aedes.  Na imagem a seguir vemos as principais associações temáticas, de onde observamos de forma mais forte os eventos do Carnaval e das Olimpíadas também associados ao temor pelo espalhamento da doença. A temática do aborto também aparece na discussão junto à gravidez e mulheres.

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Em espanhol, o tom é bem mais alarmista que em Português. Além de falar em "muertes" e "malformaciones", os termos usados focam em "urgência", "alerta", "perigo" e etc. Diferentemente dos tweets em Português, que focam praticamente apenas o Brasil, os tweets em espanhol associam a doença à america latina em geral (note-se os variados países citados), notadamente Argentina, Colombia, Venezuela e Bolívia. No quadro, também vemos os alertas direcionados aos viajantes (que também não aparecem nos tweets em Português), focados na gravidez e na má formação fetal.  A discussão sobre o aborto também aparece neste mapa e notamos uma forte associação entre o vírus e as Olimpíadas e o Rio de Janeiro. Também vemos a dengue e a chikunguya associadas ao debate. Nos tweets em espanhol, também, o combate aparece principalmente através do uso de mosquitos transgênicos (e também há a menção ao contágio sexual).

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Os tweets em inglês são ainda mais alarmistas que os em Português e Espanhol. A doença é fortemente associada aos mosquitos, à América Latina (e ao clima tropical e ao Brasil), à saúde, bem como relacionada aos problemas na gravidez para mulheres e aos problemas neurológicos (cerebrais) nos bebês. A discussão sobre o aborto também é levantada. Palavras como "threat" (ameaça), "alarming" (alarmante), "explosively" (explosivo), "risk"( risco) , "panic" (panico) e etc. aparecem bastante, dando o tom geral dos tweets. Novamente, como no conjunto de dados em espanhol, vemos alerta aos viajantes e uma forte associação entre as Olimpíadas, o Rio e a necessidade de prevenção. Nesse conjunto de tweets também aparece, mas de forma discreta, a dengue e a síndrome de Guillan-Barré, um tipo de paralisia associada à infecção pelo zika. 

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É interessante observar que há muito mais atenção da comunidade internacional nos tweets do que da própria população do Twitter no Brasil. Além disso, essa atenção é direcionada principalmente à zika, e em bem menor medida,  à dengue. Entre as associações mais fortes está o virus à América Latina e às Olimpíadas, além dos diversos alertas de viagem aos países atingidos (e consequentemente ao Brasil). Em todos os tweets há um tom alarmista, mas ele é pior em inglês. Outro ponto relevante é o destaque para as ações de prevenção e a esperança pela vacina. No tweets em Português, também vemos a associação da doença com o Carnaval e a palavra "Deus" associada.  Os tweets em inglês, são mais alarmistas, focados na emergência de saúde mundial e no espalhamento da epidemia e suas consequencias. Alertas diversos para viagens e para as Olimpíadas e um forte foco na questão da microcefalia também aparecem aqui de modo diferente.  Em espanhol, os tweets já focam principalmente a América Latina, embora a regularidade da associação com viagem e com as Olimpíadas seja igual aos dados em inglês.

Sobre o Ódio da Mídia Social


hate.pngTenho falado com alguma frequencia sobre a questão da proliferação do discurso de ódio na mídia social. Pesquisamos o ódio e a violência (entendida aqui como violência discursiva) no MIDIARS desde 2008 e, embora não tenhamos uma resposta a respeito dos motivos pelos quais a midia social (em geral) tornou-se mais agressiva, trabalhamos com algumas hipóteses que vou dividir aqui com vocês.

A Conversação na Mídia Social
Em primeiro lugar, precisamos compreender que a mídia social é apropriada como análoga da conversação, embora, na maior parte das vezes, seja escrita. As pessoas utilizam esses canais de modo informal, de forma rápida (dificilmente alguém fica horas considerando o que vai dizer, como numa carta, a interação é rápida, é preciso pressa) e pessoal. As conversações, entretanto, detém um processo complexo de constante negociação, onde tudo aquilo que é dito é avaliado pelo feedback dos demais e realinhado conforme a recepção. Assim, por exemplo, se você está conversando no espaço offline com algum grupo, você está constantemente alinhando aquilo que você diz pelo feedback que você recebe. Imagine que você está conversando com um colega de trabalho que você não tem muita intimidade e, pelo andar do assunto, você arrisca uma pequena crítica a outro colega ("Mas o Fulano anda meio estranho..."). O colega que conversa com você responde algo não esperado ("Estranho? Não, acho que ele está bem normal."). Ao invés de continuar a crítica, em geral, você tende a suavizá-la ("Ah, achei meio quieto só")  ou refutá-la ("Deve ter sido impressão minha então"). Isso porque o objetivo da interação raramente é o conflito, em geral, é a concordância, é a manutenção/aprofundamento do laço social (Gosto muito da noção de "face" do Goffman, que foca muito bem os propósitos da interação, focados na manutenção da face - concordância- e não na ameaça a ela - discordância).. As pessoas (de modo geral) não conversam para fazer inimigos, mas ampliar suas conexões sociais. Só que isso não acontece na mídia social, onde a conversação é assíncrona, os turnos não são subsequentes e a organização é muito mais caótica.

Interação com uma tela
Na maior parte das vezes, quem "fala" na midia social, fala com uma tela. Isso significa que os turnos da conversa não são sequenciais (ou seja, você não tem feedback imediato, como na conversação "offline"), e com isso, não se consegue adequar a interação como na conversação offline. O que as pessoas fazem então é "despejar" tudo aquilo que diriam numa conversa onde há concordância, imaginando uma audiência potencial com a qual ela provavelmente já interagiu, que concorda com ela. A tela não apresenta feedback e, por isso, é difícil modular aquilo que se diz.

Audiência Invisível
Imaginemos assim, que você convive em um reduto, no trabalho, que tem uma determinada posição política. Na hora do café, todos os colegas discutem animadamente a situação do País, e todos concordam com uma posição determinada, contam piadas daqueles que pensam de modo contrário e trocam informações sobre o assunto. Quando você vai ao Facebook, por exemplo, e vai falar sobre o assunto, a tendência é que se imagine esta audiência e se tome a mesma como audiência geral e vai acabar publicando coisas com as quais você entende que há apoio do seu grupo. Costumo dizer que é como se falássamos para um teatro lotado, onde apenas vemos a primeira fila, que parece estar concordando conosco. O problema é que aquilo que se diz está sendo publicado e, portanto, será visto por outras pessoas (o resto do teatro). Assim, no mesmo exemplo, podemos imaginar colegas de outro setor ou um time gerencial que faz o mesmo que os seus colegas e você, mas que tem outra posição política oposta. Quando você publica algo contrário a isso e sem a opção de feedback (ou seja, possibilidade de suavizar a crítica), embora agrade a seu grupo vai ameaçar a face deste outro, que também é sua audiência. Talvez não tenha sido nem a intenção ofender a essas pessoas, acaba acontecendo. (Essa é uma idéia da danah boyd, no texto dos "públicos mediados".)

Confusão dos Espaços Sociais
Outro problema é a confusão dos espaços sociais. Na sua vida, cada espaço social configura um contexto específico onde determinadas coisas podem ou não ser ditas. Por exemplo, no almoço de família, o assunto "relações amorosas" pode ser proibido, mas junto aos amigos, ele é liberado. Tem coisas que podem ser ditas no bar, mas que não podem ser trazidas ao ambiente de trabalho. Na vida offline, enxergamos essas fronteiras com clareza e nos adequamos a elas. Nos canais de mídia social, ao contrário, esses espaços são confundidos. Temos família, colegas de trabalho (por vezes o chefe), amigos e etc. Agora imaginemos que você está insatisfeito com alguma ocorrência no trabalho. Você poderia queixar-se aos colegas ou amigos ou familia, mas certamente não iria ao chefe diretamente. Na midia social, entretanto, não há essa separação. Todos estão lá. Tudo é dito.

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Colapso dos Contextos
Tudo isso faz com que os contextos da conversação na midia social sejam complexos e difíceis de delimitar durante a interação. E sem o feedback, as pessoas acabam dizendo coisas que ofendem a outros o que faz com que a agressividade escale. Com a dificuldade de adequar o que é dito rapidamente, há ofensas permanentes e muita gente acaba se desligando de outras pessoas e isolando-se de outros grupos. A agressividade gera mais agressividade. (Essa também é uma idéia da danah boyd, no mesmo texto.)

Maior Visibilidade de Discursos presentes na Sociedade
Além dessas questões individuais, a publicação de falas faz com que determinados discursos presentes na sociedade sejam mais visíveis (racismo, misoginia, homofobia, violência e etc.). Assim, elementos de preconceito que são mais modulados na interação face a face aparecem mais. E há dois lados para esses elementos. Se por um lado, eles são mais desafiados pela audiência invisível na mídia social (você conta uma piada preconceituosa que sempre falou aos amigos, mas na internet as pessoas caem em cima), eles também encontram concordância (outras pessoas saem em sua defesa). Como o argumento é ad hominem, ou seja, critica-se o locutor e não o discurso ("vc é burro pq disse A"), a tendência é a polarização (como vários trabalhos sobre política têm demonstrado) e não o diálogo para desconstruir o preconceito. Deste modo, a discussão acaba polarizada, com dois grupos que se agridem.

Robôs que proliferam o Ódio
Finalmente, temos também um grande número de bots e contas falsas que insistentemente reproduzem determinados discursos agressivos (e muitos também falsos), o que também contribui para a disseminação da agressão e da desinformação e não o diálogo. 

Ou seja, as pessoas não são "mais agressivas" no espaço online. Elas simplesmente estão entrando em um ambiente onde a agressão está presente na conversação e escala. Sentindo-se agredidas, elas tendem a agredir o que só aumenta o caos. Isso gera uma insatisfação com ferramentas mais amplas (como o Facebook e o Twitter) e motiva também uma corrida a ferramentas mais "fechadas", onde se saiba exatamente quem é o grupo com quem se fala (como os grupos no Whatsapp, por exemplo). Além disso, também levam as pessoas a limitar seus posts, limitar a visibilidade e buscar separar os grupos que recebem suas mensagens. Essa separação hoje já é cotidiana no Facebook ("unfollow") e constrói redutos informativos, apagando os discursos contrários, o que também não é necessariamente bom para a sociedade. O contato com o contraditório é importante, porque faz pensar e mostra que não há um único ponto de vista sobre alguma coisa. Minha esperança na mídia social era isso, mas o que temos visto é o contrário (separação dos grupos e apagamento dos discursos). Também vemos o crescimento de grupos ativistas, que buscam espalhar determinados discursos (já falei um pouco no último post desses elementos), que buscam amplificar essas idéias, o que tem, por vezes, sido bem sucedido.

Disputas discursivas no Twitter: O Dia da Consciência Negra


Há algum tempo, fiz um trabalho de análise de redes focando os discursos sobre o dia da consciência negra no Twitter. Resolvi repetir esse trabalho no dia 20, três anos depois de um estudo semelhante (veja aqui o artigo), para ver o que é possível observar no mesmo Twitter. Uma das primeiras coisas que achei importante registrar é a caracterização cada vez maior do Twitter como um espaço de ativismo. O Henrique Antoun e o Fabio Malini já falavam disso há anos, mas tenho visto nos últimos tempos, que o uso do Twitter como uma ferramenta de espalhamento de mensagens, conscientização (não entendo isso como conscientização por algo que vc concorde) e mobilização em torno de um determinado assunto é cada vez maior. Com isso, grupos diversos acabam reunindo-se e promovendo "tuitaços", e "subindo" hashtags e isso acaba dominando boa parte da conversa na ferramenta, durante um determinado período. Para tentar driblar esses grupos e pegar uma idéia de discurso mais generalizada, fiz a busca por vários termos, focando os resultados a seguir no "consciência negra" não como tag, mas como palavras separadas. Embora eu tenha coletado bem mais coisa, aqui vou comentar rapidamente só 17456 tweets coletados no final do dia 20, através do NodeXL. Como vocês sabem, o Node tem dificuldade de trabalhar com um número maior do que 10 mil nós, por isso, optei por fazer os grafos no Gephi. Foram 16.339 nós. 

O primeiro mapa, a seguir, mostra as relações entre os nós e os tweets. Os tamanho dos nós refere-se ao número de retweets e menções. São aqueles nós que mais influenciaram a conversação com seus tweets. Vemos vários nós humorísticos, mas que também trouxeram mensagens de bastante conscientização. Alguns tweeters humorísticos dão o tom de várias falas, mas também há a presença forte de coletivos e ativistas. (Clique na imagem para ver em tamanho maior.)

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Na imagem a seguir, vemos aqueles nós cujos tweets repercutiram mais em diferentes grupos e não apenas nas suas audiências (vejam vários nós com características mais políticas e ativistas), o que também contribui para o "tom" da discussão. (Clique na imagem para ver em tamanho maior.) 

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Discursos

No mapa a seguir, vemos os principais conceitos associados aos tweets sobre a data. O tamanho do conceito refere-se a sua frequencia e as conexões, às suas ocorrências conjuntas. Evidentemente, o mapa é dominado pelo grupo "dia consciência negra". É interessante observar também a presença de "racismo", "igualdade", "luta", "raça" e outros termos bastante relevantes no grupo vermelho, o mais focado em mensagens ativistas da data. O grupo em tom mais claro compreende tweets mais gerais, focados em assuntos diversos, como a comemoração, zumbi, feriado e etc. (Clique na imagem para ver em tamanho maior).

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No mapa a seguir, vemos as co-ocorrências mais importantes no grupo geral. Vejam como fica mais clara a escolha de palavras ("direitos", "igualdade", "racismo", "luta", "raça" e "homenagem"  - ao invés de "comemoração") no grupo vermelho, que caracterizei como discurso ativista, versus o grupo mais claro, que faz a discussão, mas onde há outros discursos também presentes. O principal deles é a famosa misquote (quote que não existe) atribuída ao Morgan Freeman, onde ele supostamente diria que seria preciso "parar de se preocupar com a consciência branca, amarela etc. etc". e se preocupar com a "consciência humana", que é uma adaptação de uma outra frase em outra entrevista que teria sido tirada de contexto (veja aqui). Mesmo assim, tweets do tipo "pra que dia da consciência negra?", "consciência negra? consciencia tranquila", estão bastante presentes. (Clique na imagem para ver em tamanho maior.)

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O que podemos observar, então?

Com relação ao meu trabalho anterior, continuamos vendo a presença de diferentes discursos sobre a data, entre eles, aquele do feriado e da comemoração. Mas é interessante também observar que cresce a presença dos conceitos "negros" e "negra" associadas à luta, respeito e direitos, o que não se via antes. Conceitos positivos como "orgulho", "cor" e hashtags de ativismo como "#lugardonegro" também aparecem com força, indicando um aumento da visibilidade do discurso da luta pela igualdade que apareceu tão apagado no trabalho anterior. Parte dessa centralização da discussão deu-se também por conta das notícias da marcha das mulheres negras, que precederam a data e de ações afirmativas que foram também noticiadas no período. Isso é uma mudança importante na arena da esfera pública da mídia social, trazendo evidências cada vez maiores da politização e de seu espaço para ativismo na discussão de temas relevantes (e também muitas vezes "apagados" da mídia tradicional). Apesar disso, vemos que também há o discurso de apagamento presente (que questiona a data ou que diminui sua relevância). O que é interessante, entretanto, é que em 2012 esse era o discurso prevalante. Neste 2015 não foi mais. 

Crianças e o Youtube: Algumas observações


minecraftkids.jpgEstou envolvida em um trabalho do ESPM Media Lab (liderado pela Luciana Correa) que busca monitorar os canais do YouTube mais usados por crianças. Achei interessantíssimo o tema primeiro porque a maioria das pessoas que têm analisado o uso da internet não se deu conta do crescimento da rede no público infantil e também, porque o letramento digital dessas crianças, por causa dos smartphones, acontece cada vez mais cedo (os pais costumam usar desenhos no Youtube para entreter os pequenos, abrindo a porta de entrada da ferramenta para eles). Refletindo sobre essas questões e buscando dados nos últimos dias, tracei algumas linhas.

O fenômeno Minecraft

A primeira coisa é a popularidade dos canais para crianças. Recentemente, o Diamond Minecart, do britânico DanTDM, foi o canal com maior audiência da ferramenta, ultrapassando canais como o da Taylor Swift e o PewDiePie (famoso gamer), com mais de 400 milhões de views no mês. O canal, para quem não conhece, é focado no Minecraft, com vídeos de reviews dos diversos modes do jogo, personagens criados por Dan e animações dos joguinhos. Mas o mais importante não é isso. É o fato de que o TDM é um canal "familyfriend", ou seja, um canal com um conteúdo mais infantil. Enquanto experimenta os modes, por exemplo, Dan costuma ter a companhia de seus vários lobos de estimação ou do Dr. Trayaurus, seu... ahm... villager de estimação. O caso é que a audiência desses canais está cada vez mais jovem, o que Dan parece ter intuído. Além dele, outros canais focados no jogo e animações com seus personagens estão entre os mais populares. Vemos um fenômeno parecido no Brasil. Canais como AuthenticGames e RezendeEvil estão entre aqueles mais populares do Youtube no Brasil. São também canais focados em Minecraft, só que com um tom muito mais adolescente, embora sua popularidade também esteja crescendo junto às crianças. O conteúdo, entretanto, nem sempre é adequado.

Mas não só de Minecraft vivem as crianças no YouTube. Canais de unboxing (apresentação de brinquedos) e brincadeiras também são extremamente populares. 

Jovens Youtubbers

Com o crescimento dos diferentes canais, outro fenômeno está crescendo junto ao público infantil: A produção de conteúdo. Ao ver seus canais favoritos, as crianças não apenas querem usar o conhecimento adquirido nos jogos (Minecraft, por exemplo, é um dos jogos mais populares entre crianças no mundo e foi adquirido pela Microsoft ano passado), mas igualmente produzir seus próprios canais. A produção de conteúdo com smartphones e algum acesso à internet é cada vez mais acessível e cada vez maior entre os adolescentes (entretanto, em outras ferramentas). A tendência é que chegue agora para as crianças.

Questões Centrais

O crescimento da audiência infantil do YouTube levou também ao aumento da preocupação do acesso a canais pelos pais, especialmente a conteúdo não próprio. Com isso, o Google anunciou o YouTube Kids, uma espécie de "portal de entrada" para as crianças na ferramenta, que promete dar aos pais maior controle ao que as crianças acessam (que ainda não tem no Brasil). Mas o acesso a conteúdo impróprio não é o único problema. Além do acesso a conteúdo, outras questões fundamentais dizem respeito à privacidade (O crescimento de canais protagonizados por crianças, por exemplo, pode colocar em risco sua privacidade? Quais efeitos esses canais podem ter no futuro dessas crianças? Como a memória da internet pode afetar, com essas produções, a vida futura?), questões financeiras e jurídicas (Muitos destes canais são explorados pelos pais e produzem milhões de dólares anualmente, que as crianças produtoras não recebem diretamente. Como ficam essas questões?) e, ainda, questões educacionais (Qual será o papel da escola para crianças que já aprenderam a ler para fazer buscas no YouTube, que já estão acostumadas a acessar e produzir conteúdo altamente hipermidiático?). Outra questão que tem sido levantada é o targetting de crianças como público alvo de anúncios na ferramenta, anúncios que muitas vezes não são desejados pelos pais. Muitas dessas preocupações já foram expostas em relatórios internacionais (gosto muito do Digital Media and Learning que, inclusive, com webinars sobre como as escolas podem usar o Minecraft como parte do currículo como modo de estimular experimentos e conteúdos, além de outras questões amplas), bem como passaram a ser discutidas em várias esferas, principalmente nos EUA e na Europa. Mas ainda são pouco discutidas por aqi. Creio que é um fenômeno que precisamos olhar com mais cuidado.

Lançamento do Cheddar do McDonalds


Estudando monitoramento de mídia social com os alunos, observamos o lançamento dos novos hamburgueres e batatas com cheddar do McDonalds Brasil. Para pode usar em aula, acabei fazendo algumas coletas e observando como as pessoas comentaram o lançamento. Os dados referem-se a 11.474 tweets de 10770 usuários coletados entre os dias 07/10 e 09/10. 

O grafo a seguir mostra a hashtag #novinhocheddar, que foi patrocinada pela marca. Cada conta é uma linha que une-o a outra conta que tenha sido citada pela primeira. Ao centro de todas as citações está a conta do @McDonalds_Br. Há outros nós importantes (em tamanho levamente maior), mas que só se vê na imagem aumentada. (Clique na imagem para ver em tamanho maior.)

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O número de tweets com a hashtag foi baixo (minha expectativa seria, pelo menos, 6 ou 7 vezes esse número, dada a popularidade do assunto). O grande nó central sendo a conta da marca justifica-se pelo número de retweets da mensagem que anunciava o lançamento, que continua, junto, uma imagem dos novos hamburguers. Esse cenário é, portanto, esperado. Nota-se, entretanto, que não há outras contas que auxiliaram a dar visibilidade a mensagem, sendo unicamente repetida pelos seguidores da marca.

Quando observamos o que foi dito, temos o grafo a seguir. As cores indicam grupabilidade, ou seja, palavras que tendem a aparecer juntas. As conexões indicam a relação entre dois conceitos. Quanto mais forte a relação (mais apareceram juntos), maior a espessura. O tamanho dos conceitos corresponde à sua frequencia nos dados. (Clique na imagem para ver em tamanho maior.)

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É interessante observar que há grupos diferentes de conceitos. O mais amplo, em laranja, acima, apresenta vários conceitos positivos associados ao hamburguer e à batata (refere-se ao desejo pelo produto). Já o rosa, abaixo, com "lanche" como palavra central, traz conceitos como "reclamar", "fotos", "iguais" (refere-se a pessoas que foram comer o lanche e postaram imagens reclamando que o produto na loja não é igual ao das fotos). O grupo turquesa, logo acima do rosa, traz outra discussão: a da música do comercial (onde houve críticas e elogios). Já o grupo amarelo, abaixo, refere-se ao imenso conjunto de retweets do tweet inaugural. Os demais grupos, em geral, mostram associações de conceitos positivos que foram usados nos tweets.

Vemos, assim, que além do impacto do lançamento, que gera desejo e parece atingir positivamente os consumidores, também há impacto negativo da expectativa do consumidor x realidade. E é interessante observar também o que mais foi associado a este lançamento (conceitos positivos e negativos, bem como as polêmicas). Este post não faz parte da série do que dá para fazer com ARS, mas pode também ser lido nesta ótica.

O que dá para fazer com Análise de Redes e Mídia Social?


Muita gente questiona, então achei que seria interessante escrever uma pequena série de posts sobre os usos de ARS para mídia social, ou seja, como podemos usar suas métricas para compreender melhor as redes formadas em torno de fanpages, hashtags e canais de mídia social em geral. O foco de nosso livro (Análise de Redes para Mídia Social) é justamente esse: Prover interessados com explicações mais simples e com exemplos de como as métricas de ARS e suas ferramentas podem ser usadas para essas análises. Neste post, usei redes verdadeiras criadas com o NodeXL.

A Análise de Redes Sociais serve para desvelar a estrutura das redes. Isso significa que podemos observar como a rede existe em relação aos vários elementos que fazem parte dela. Assim, por exemplo, podemos analisar se a estrutura de uma fanpage é mais próxima daquela de uma comunidade virtual (onde há laços fortes entre os participantes e capital social de segundo nível, ou seja, institucionalizado) ou mais próxima daquela de uma rede mais aberta (onde há pouco capital social e laços fracos ou nenhum laço). Isso nos dá importantes pistas sobre como a posição de uma determinada marca ou canal na mídia social. Indica, por exemplo, as chamadas "love marks" (marcas amadas, que contam com um grupo de ativistas a seu favor). Também pode indicar se a estratégia de conteúdo do canal atinge seus objetivos em cima dos valores que são prospectados ou não.

No exemplo a seguir, temos duas redes da mesma fanpage no Facebook. Na primeira, vemos que há uma rede fragmentada, onde poucos usuários retornam para comentar os posts. (Clique na imagem para ver em tamanho maior.)

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No proximo exemplo, vemos um caso diferente: uma rede muito mais conectada. Há vários comentários entre os usuários da fanpage, caracterizando um conteúdo mais engajante e um período de muito mais atuação entre a comunidade da marca. (Clique na imagem para ver em tamanho maior.)


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Esse tipo de análise também pode indicar quando há grupos atuando de modo a tornar uma determinada hashtag ou mensagem mais visível ou quanto essa mensagem é mais orgânica. No primeiro caso, a seguir, vemos um grupo fortemente conectado (ou seja, onde pessoas repassam as informações de outros atores do grupo - ou seja, onde já há uma relação anterior- de forma consistente. É um grupo "ativista", ou seja, que atua de modo a fazer uma determinada informação ganhar visibilidade na rede. (Clique na imagem para ver em tamanho maior.)


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No segundo caso, a seguir, temos uma mensagem mais orgânica, mais espontânea. Não é possível ver um grupo interconectado que atua de forma a popularizar a mensagem. (Ambos os casos foram coletados no Twitter e dizem respeito a diferentes eventos.) (Clique na imagem para ver em tamanho maior.)



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No próximo post, continuo com os comentários sobre o uso de ARS, focando a questão da identificação dos influenciadores. 

#RIR e Hashtags - Primeiro experimento com Instagram


Em um pequeno experimento com uso de hashtags no Instagram, coletei 1620 posts que usaram a hashtag #RIR, referente ao "rock in rio". Ao centro do grafo, temos as hashtags mais usadas em conjunto no grupo de dados, por tamanho. Neste espaço há um grupo de hashtags mais orgânicas, usadas por vários posts. Entretanto, em torno do grafo vemos vários núcleos de hashtags que foram usadas em conjunto por apenas alguns posts (núcleos coloridos). A observação dos grupos de hashtags indica mais claramente contextos de postagens das fotos. As cores indicam grupos (hashtags que aparecem em conjunto), o tamanho é o grau (frequencia nos dados) e as conexões indicam hashtags que aparecem juntas.

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A seguir vemos o núcleo das hashtags mais usadas (não coloquei todas porque fica ruim de visualizar, só as mais comuns). Cada hashtag que aparece aqui foi citada pelo menos 120 vezes nos posts analisados. É interessante observar os conjuntos de hashtags mais usadas, como nomes de artistas, estilos e etc. Nos núcleos (que não marquei aqui), há grupos de sentido bem importantes, como a questão das roupas (um dos núcleos refere-se, por exemplo, a questão do turismo no Rio. Outro refere-se à "estilo" e outras palavras-chaves em torno de moda.)

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Vamos continuar explorando esses conjuntos de hashtags. Em princípio, parecem marcações bastante contextuais, indicando espaços discursivos onde os posts apareçam. Resta saber se essa hipótese se confirma e se realmente é possível inferir sentido pelos conjuntos de tags utilizadas.

#MasterchefBrasil: Dados da última semana no Twitter


Vi uma grande mobilização na internet nos últimos dias em torno da edição brasileira do Masterchef. Coletei na última semana (dois programas, mais ou menos) os tweets que continham a tag "MasterchefBrasil" (36831 tweets e 25257 contas individuais). O programa realmente bomba bastante no Twitter nas noites de terça-feira. E o que é interessante, há um grupo de fãs que fala bastante do assunto, com poucos "famosos" e grandes influenciadores. O grafo abaixo mostra a rede em geral, com um grande cluster (que não está em torno das contas principais do programa), que representa, num mesmo cluster, a conversação. O grafo mostra os grupos por cores e o tamanho dos nós pela quantidade de tweets sobre o programa. Ao centro do grafo, vemos que estão realmente os nós que mais falaram do programa. (Clique no grafo p/ ver em tamanho maior.)

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O mais interessante ainda está no grafo da análise de contingência do que está sendo dito no Twitter. No grafo a seguir, vemos quais conceitos foram mais associados aos participantes. Vemos que os participantes mais falados são Jiang, que está fortemente relacionada a "melhor" e a "amo". Fernando, eliminado esta semana, está fortemente associado a Lucas que foi eliminado na semana anterior. Em menor presença, estão Cristiano e Izabel. Interessante que Cristiano é citado em contextos onde Jiang também foi (provavelmente relacionados a mesma equipe), enquanto Izabel está mais isolada em outro cluster. Além disso, outros elementos relacionados ao programa são "torcida", "comida", "fome", diversos tipos de alimentos. (Clique para ver o grafo em tamanho maior.)
 
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Ao observar o grafo normalizado, essas diferenças ficam mais claras. Tirando os participantes eliminados. Jiang lidera as citações e as associações. (Clique no grafo para ver em tamanho maior.)




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Finalmente, no próximo grafo, dos dados normalizados, conseguimos ver as associações mais frequentes. Jiang é "fofa", "#ficajiang", "campeã", "perdida" etc. Essas associações mostram que a competidora tem sim uma torcida já, que está associando seu nome a vários adjetivos e conceitos positivos. Izabel, por outro lado, é "falsiane", está diretamente relacionada a "Raul", "boa", "aula", "raposa" etc. Fernando está associado a Lucas, Marcos e Cristiano. Fernando, o único associado a #ficafernando, o que também mostra uma torcida. Entre as associações mais fortes "programa" e "melhor". (Clique no grafo para ver em tamanho maior.)

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